Aos 17 anos, morre Camões, o cachorro que inspirou Saramago

por Samantha Kelly — publicado 7 ago 2012 - 10:20

O escritor, que morreu em 2010, adotou o cão em 1995

 

Camões, o cachorro no qual o escritor português José Saramago se inspirou para criar O Achado, o melhor aliado do oleiro protagonista de seu romance A Caverna, morreu nesta quinta-feira (2) em Lanzarote, informou a viúva do escritor, Pilar del Río, em um texto emocionado publicado na página da Fundação de mesmo nome do escritor.

“Morreu Camões, o cão que inspirou Saramago”, é o título dado por Pilar del Río em sua despedida ao animal, que chegou a seu lar de Lanzarote no mesmo tempo em que o escritor soube que tinha sido agraciado com o Prêmio Camões, em 1995. “Entra, chegaste a tua casa. Assim entrou Camões na vida de José Saramago”, continua a viúva do prêmio Nobel de Literatura sobre este cachorro, “doce e nobre”, que foi batizado como o grande poeta português e que sofreu com a morte do escritor em 2010.

O escritor e sua esposa conviviam com três cachorros em sua casa de Lanzarote: Pepe, um poodle; Greta, uma fêmea Yorkshire; e Camões, da raça conhecida como cão d’água, o único que ainda estava vivo, e como seus companheiros, recolhido da rua. “Quando Camões apareceu por aqui, com seu pelo preto e a exclusiva gravata branca que o distingue de qualquer outro exemplar da espécie canina, todos os humanos de casa se pronunciaram sobre a suposta raça do recém chegado: um poodle. Fui o único que disse que poodle não era, mas cão d’água português”, escreveu em seu blog o romancista em fevereiro de 2009.

Em tal texto, Saramago falava deste animal, de seus atributos por causa de idade, de seus companheiros Pepe e Greta (“que já foram embora para o paraíso dos cachorros”), e brincava com a coincidência que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tinha escolhido um cão d’água português para suas filhas. “Novos tempo se aproximam”, dizia com ironia. O autor se inspirou neste companheiro para criar O Achado, o cachorro de honorável comportamento que aparece – também de repente – na casa do oleiro Cipriano Algor, protagonista de A Caverna (2000).

Mas este não é o único caso no qual os cães são portadores de mensagens nos livros do Prêmio Nobel de Literatura 1998, pois em Ensaio Sobre a Cegueira, um cachorro bebe as lágrimas de uma mulher, um momento do qual o escritor se mostrava especialmente orgulhoso. Em O Homem Duplicado, Tomarctus salvará o protagonista do romance, Tertuliano Máximo Afonso, e em A Jangada de Pedra, os cinco protagonistas encontram um cachorro que o escritor batizou como Constante (entre outras opções como Fiel, Piloto e Sentinela), por seu afã de acompanhar um dos personagens até o túmulo.

“Encontro nos cachorros mais humanidade que nos homens”, afirmou o autor português em 2003 no México, uma das ocasiões nas quais falou longamente sobre sua relação com os cães, e o papel que estes tiveram em seus romances.

 

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